E assim, começa mais um capítulo da série de "reminescências de quase morte", que pode ser revista aqui e aqui.
Talvez, antes de começar e tudo o mais, eu deva dar bons motivos pelos quais fiquei tão distante, por tanto tempo, desse blog, quando sei que todos meus assíduos leitores mal podiam esperar para ler as quase infinitas coisas divertidas que fazem de minha vida uma aventura invejável. Mas estou com preguiça, então fica pra depois.
De qualquer forma, nada melhor para matar uma pausa de alguns meses do que reminescências de quase morte, não?
As peripécias que contam de vezes onde você quase morre se tornam histórias extremamente engraçadas para serem contadas depois para seus colegas, filhos ou pessoas aleatórias com as quais você entra em contato em redes sociais. E o fato de você poder contá-las é uma grande vantagem sobre as histórias onde você efetivamente morre.
Você sabia que o ENEM tem um logo? Eu também não! E aparentemente muda todo ano!
Para quem não sabe, o ENEM é uma prova de múltipla escolha desenvolvida pelo MEC para avaliar o nível de escolaridade da população brasileira. É muito parecida com uma prova psicotécnica de escola de trânsito, com a diferença de que é infinitamente longa, e exige que você passe ainda mais tempo tentando chegar ao local onde será aplicada a prova do que fazendo a prova em si.
O ENEM também tem uma redação que vale um pouco menos do duas tampinhas de tubaína sabor tutti-frutti. Atualmente, sabe-se que o único motivo pelo qual a redação é aplicada é para a posterior publicação das pérolas do ENEM.
O ENEM também tem uma redação que vale um pouco menos do duas tampinhas de tubaína sabor tutti-frutti. Atualmente, sabe-se que o único motivo pelo qual a redação é aplicada é para a posterior publicação das pérolas do ENEM.
E, por fim, exemplares das provas do ENEM usualmente são astutamente escondidos dentro de envelopes marrons com os dizeres "provas do ENEM, confidencial, Ministério da Educação e da Cultura", dentro de armários de acesso público. Tentou-se provar que isso possa ter ocasionado no vazamento de provas, mas não chegou de fato a nenhuma conclusão.
Divago...
Era eu um pimpolho cheio de sonhos, acreditando um dia que poderia ser um vagabundo extremamente rico, casado com uma mulher linda e inteligente e com filhos ganhadores de prêmios Nobel, e razoavelmente satisfeito com minha vida por conta disso.
Não lembro muito bem o ano da prova, precisaria pesquisar, mas lembro que nesse dia teve um jogo do São Paulo e Linilson fez um gol... Então creio que faça um bom tempo.
O dia tinha sido excelente. Após acordar e tomar um belo café da manhã, peregrinei por parte da cidade até chegar no local de aplicação da prova.
A prova seria em um prédio da faculdade UNINOVE, em algum lugar próximo do ponto diametralmente oposto à minha casa na cidade de São Paulo. O prédio era belíssimo, com muitos andares e escadas rolantes, além de salas amplas e corredores elegantes.
Estava me sentindo preparado. Entrei na minha sala e sentei ao lado de um rapaz com o mesmo nome do que eu, que curiosamente era o mesmo nome do cidadão em frente, atrás e, bom, todas as 100 pessoas da sala.
Se houvesse um desastre nuclear de minúsculas proporções que destruísse aquela sala, o país teria um grande déficit de pessoas com o meu nome pelos próximos anos. E todos sabemos que Joões são uma das maiores commodities de exportação do Brasil.
Fiz a prova com relativa tranquilidade. Expliquei o funcionamento do aquecimento global, avaliei o eclipse de uma lua e calculei a relação área x volume entre duas velas cilíndricas diferentes. Assim, após algumas horas, estava terminado, e eu um passo mais próximo de entrar na faculdade desejada.
Saí da sala e fui em direção às escadas para sair do prédio. No caminho, passei por um jovem sentado em uma cadeira de rodas, que parecia olhar um tanto quanto pensativo na direção do horizonte.
Subi nas escadas e deixei que seu lento movimento me levasse para a saída.
Senti um ventinho frio...
... E aí, pensei...
"Porra, esqueci o casaco na sala".
É, pensando agora, foi mais ou menos isso que eu pensei.
Imediatamente olhei para as escadas rolantes que supostamente deveriam estar subindo, todas desciam.
Olhei para as portas de acesso às escadas de emergência, trancadas.
Tempo de pensamento: aproximadamente 2 segundos.
Não tive dúvidas, me virei e comecei a correr para cima, subindo as escadas que desciam, tal qual uma crianças feliz, que vê muita diversão em andar sem sair do lugar. Com a diferença de que eu não estava tão feliz.
E vou dizer, as escadas da UNINOVE são muito rápidas...
"Moleque, para com isso, desce daí" -
- Ouvi alguém gritar pouco abaixo de mim. Num relance rápido, vi um dos guardinhas responsáveis por monitorar os corredores gritando comigo, enquanto pensava se havia algum procedimento padrão no "manual dos guardinhas de provas do ENEM" a respeito de japoneses que aleatoriamente decidem brincar nas escadas rolantes do prédio, após fazerem as provas.
Mas já era tarde, o andar superior já estava logo ao meu alcance.
Triunfante, saltei o último salto glorioso para sair da escada.
O degrau desceu um tiquinho.
Eu tropecei.
Eu cai.
Não é muito legal cair. Dizem que o importante não é quantas vezes você cai, mas quantas você se levanta... Eu não gostaria de ficar caindo muitas vezes ao longo do dia.
Não, cair não é legal.
E é ainda pior quando se está em cima de uma superfície móvel.
Comecei a sentir a escada me arrastando para baixo. Segurei as laterais das escada rolante e me arrastei como um inseto bobo para cima...
...
Pensando agora, isso foi um momento bem triste da minha vida, e acho que não havia grande necessidade de compartilhar com vocês...
Chegando no andar superior, imediatamente me levantei e tirei o pó de minha camiseta, como se nada tivesse acontecido.
Olhei para o lado e lá estava o cadeirante. Me olhava com uma cara de profunda vergonha alheia.
Pois é, eu sei o que vocês devem estar pensando...
"Poxa cara, você não chegou a quase morrer, essa não é uma reminescência de quase morte".
Ao que eu responderei:
"Verdade, não é".
...
Bom, eu ainda tenho esse casaco.

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